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Vatel - Um Banquete Para o Rei

Vatel“Vatel” é um filme muito bacana pra quem gosta de comida e história. Conta um pouco da vida de François Vatel, tido como o inventor do chantilly, chef encarregado de organizar um fim de semana de iguarias e divertimentos para a côrte de Luís XIV, o Rei Sol, conhecido pela sua vaidade sem limites. Mais que saudar o rei, o falido anfitrião Princípe de Condé quer obter benefícios econômicos da visita real. Para isso, pretende seduzir Sua Majestade com as fantásticas habilidades de seu servo Vatel.


O filme mostra Vatel como um mestre de cerimônias completo. Planeja esculturas em gelo para o cenário de um jantar, organiza apresentações teatrais e arquiteta espetáculos de fogos de artifício para a abertura dos banquetes. Mas é claro que, além de coordenar as fantásticas apresentações que precedem ou sucedem as refeições e bolar as decorações mais imaginosas possíveis, Vatel também é o responsável pelo cardápio requintado e pela execução de todos os pratos.


A cena da invenção do chantilly pode passar despercebida: é minúscula, quase sem importância, e por isso fica ainda mais divertida. No meio da correria do banquete, um auxiliar diz a Vatel que faltam ovos para as claras em neve. Vatel pára e pensa um pouco, pega um punhado de nata com uma colher e joga numa tijela. Mistura açúcar e começa a bater, até obter o creme. “Use isto. Se perguntarem, diga que é uma tradicional receita de Chantilly”. Hehe. Chantilly é o nome do castelo onde o banquete foi oferecido. O mais engraçado não é o jogo de palavras, mas a maneira despreocupada como Vatel tira do nada a receita, como se fosse mágica.


A direção de arte, os figurinos e a trilha sonora de Ennio Morricone são um espetáculo à parte, mas o roteiro e a direção de Roland Joffé (vencedor da Palma de Ouro por “A Missão”) não deixam nada a desejar à produção requintada, cheia de detalhes de encher os olhos. O elenco também dá gosto: Gérard Depardieu constrói um genuíno Vatel, Uma Thurman é a cortesã que se apaixona por ele e Tim Roth interpreta um marquês intrigueiro com muita competência. Os coadjuvantes também são ótimos.


“Vatel” tem uma história simples e bem contada sobre quatro dias na vida de uma figura fabulosa. Bom, ao menos a história não peca por excesso nem aborrece em momento algum, pelo contrário: ao final, tive uma vontade enorme de saber mais sobre o personagem. Preparei umas coisinhas no “leia mais” para satisfazer essa curiosidade.


Atenção: recomendo o “leia mais” apenas para quem já viu o filme ou conhece a história. Há ali um documento que torna a história de François Vatel ainda mais excitante, mas que pode estragar um pouco a surpresa do filme.Madame Marie de Sévigné conta, em uma de suas cartas, que Vatel cometeu suicídio numa sexta-feira em que serviria um jantar para o rei, após os peixes encomendados para o banquete não terem chegado a tempo.


Embora os motivos do suicídio possam muito bem ser questionados, a data é precisa e tudo indica que a lenda tem um fundo de verdade: segundo a carta, Vatel estava desconsolado pelos contratempos que enfrentou durante o banquete. O cozinheiro se sentia profundamente desonrado com a falta de assados em algumas mesas e desesperou-se quando a entrega de peixes atrasou, preferindo a morte a ver o seu banquete arruinado.


Apesar da tragédia, Madame de Sévigne diz que o restante do banquete foi perfeitamente conduzido pelo encarregado que Vatel nomeou pouco antes de trancar-se no quarto e lançar o corpo contra uma espada. Ou seja: nem havia motivo para tanto desespero, a não ser na mente perfeccionista e extremamente profissional de Vatel.


Encontrei na internet a carta de Madame de Sévigne, traduzida para o inglês. Além de detalhar os contratempos que presumivelmente motivaram o cozinheiro, traz detalhes dramáticos sobre o suicídio. Segundo os relatos, Vatel só conseguiu se matar na terceira tentativa: as duas primeiras investidas não provocaram perfurações mortais.


Reproduzo a carta integralmente, pois achei-a interessante pacas:
It is Sunday, the 26th of April; this letter will not go till Wednesday. It is not really a letter, but an account, which Moreuil has just given me for your benefit, of what happened at Chantilly concerning Vatel. I wrote you on Friday that he had stabbed himself; here is the story in detail.


The promenade, the collation in a spot carpeted with jon quils, - all was going to perfection. Supper came; the roast failed at one or two tables on account of a number of unexpected guests. This upset Vatel. He said several times, “My honor is lost; this is a humiliation that I cannot endure.” To Gourville he said, “My head is swimming; I have not slept for twelve nights; help me to give my orders.” Gourville consoled him as best he could, but the roast which had failed, not at the king's, but at the twenty-fifth table, haunted his mind. Gourville told Monsieur le Prince about it, and Monsieur le Prince went up to Vatel in his own room and said to him, “Vatel, all goes well; there never was anything so beautiful as the king's supper.” He answered, “Monseigneur, your goodness overwhelms me. I know that the roast failed at two tables.” “Nothing of the sort,” said Monsieur le Prince. “Do not disturb yourself, all is well.”


Midnight comes. The fireworks do not succeed on account of a cloud that overspreads them (they cost sixteen thousand francs). At four o'clock in the morning Vatel is wandering about all over the place. Everything is asleep. He meets a small purveyor with two loads of fish and asks him, “Is this all?” “Yes, sir.” The man did not know that Vatel had sent to all the seaport towns in France. Vatel waits some time, but the other purveyors do not arrive; he gets excited; he thinks that there will he no more fish. He finds Gourville and says to him, “Sir, I shall not be able to survive this disgrace.” Gourville only laughs at him. Then Vatel goes up to his own room, puts his sword against the door, and runs it through his heart, but only at the third thrust, for he gave himself two wounds which were not mortal. He falls dead.


Meanwhile the fish is coming in from every side, and people are seeking for Vatel to distribute it. They go to his room, they knock, they burst open the door, they find him lying bathed in his blood. They send for Monsieur le Prince, who is in utter despair. Monsieur le Duc bursts into tears; it was upon Vatel that his whole journey to Burgundy depended. Monsieur le Prince informed the king, very sadly; they agreed that it all came from Vatel's having his own code of honor, and they praised his courage highly even while they blamed him. The king said that for five years he had delayed his coming because he knew the extreme trouble his visit would cause. He said to Monsieur le Prince that he ought not to have but two tables and not burden himself with the responsibility for everybody, and that he would not permit Monsieur le Prince to do so again; but it was too late for poor Vatel.


Gourville, however, tried to repair the loss of Vatel, and did repair it. The dinner was excellent; so was the luncheon. They supped, they walked, they played, they hunted. The scent of jonquils was everywhere; it was all enchanting.
Extraído de “Lettres de Madame de Savigné” (April 26, 1671), que encontrei aqui.

Publicado em 21 de outubro de 2002 às 17:38 por amadeus

Comentários

  1. gisele
    • Moraes...
      Não pude resistir. Conheci o castelo de Vaux le Viconte onde Vadel trabalhou pela última vez. É incrível!!! Eles reproduziram na cozinha o ambiente da época, com direito a animais empalhados e o próprio Vatel (de cera, claro). Nas paredes, há a história dele e de como ele se matou. O filme foi rodado em Vaux le Vicomte, todinho. É muito bom ver a história assim de tão perto.
      O filme também é muito bom. O cara era um grande artista.
    • por Janaína
    • 22.Out.2002 às 17:10 - Permalink - Reportar
    Janaína
  2. amadeus
    • pois é... agora até eu fiquei em dúvida... mas então o que o Vatel de cera estaria fazendo la?!?!? Vou tentar saber e depois te conto, se isso ainda interessar.
    • por Janaína
    • 23.Out.2002 às 19:08 - Permalink - Reportar
    Janaína
    • Vaux le Viconte é outro castelo, Jana, você deve ter confundido o nome, descobri pesquisando por aí. O de Vatel é mais conhecido como o Château de Chantilly mesmo, ou então Château de Condé (o patrão de Vatel era o príncipe de Condé, lembra?).
    • por amadeus
    • 23.Out.2002 às 21:52 - Permalink - Reportar
    amadeus
    • Vaux le Vicomte é o castelo de Nicolas Fouquet. Vatel trabalhava para ele até o Louis XIV ficar moooorto de ciumes depois de uma festa linda dada para ELE pelo Fouquet, processar ele, condenar a prisão, tomar o castelo, os artistas (Molière, La Fontaine, Le Brun, Le Nôtre...) e ai despois disso Vatel foi trabalhar para o principe de Condé. Foi nessa festa de Fouquet que Vatel lançou a moda da sala (e mesa) de jantar: antes as pessoas comiam em qualquer lugar, em mesinhas montadas, e nos jantares havia varias mesas espalhadas pela sala.
      Quanto a historia do Chantilly, que eu saiba, é inventada. Mas, como dizem os italianos, Se non è Vero, è bene trovato.
      Vatel morreu como um nobre, ja que espadas eram prioridade da aristocracia; como se vê no filme, Mme de Sévigné falou disso também... moro na França e sou apaixonada pelo reino de Louis XIV!
    • por Kérol
    • 30.Jan.2004 às 20:31 - Permalink - Reportar
    Kérol
    • Eu já tinha ouvido falar do Vatel antes de ver o filme. Segundo a lenda, ele era tão caxias que se matou porque o peixe não tinha sido entregue a tempo para o banquete. O filme não segue a lenda, mas a causa do suicídio dele continuou obscura. O filme, aliás, dá a impressão que ele se matou por nada, só porque o filme tinha que acabar de algum jeito.
    • por marsupial
    • 30.Jan.2004 às 21:08 - Permalink - Reportar
    marsupial
    • Esse filme, é o mais idiota que eu já assisti, eu não recomendo para ninguém. Ele te dará vontade de dormir, fome...
      é uma porcaria, babaca, idiota, e o rei era um safado que dormia com todas as mulheres que passou no filme. Vatel foi um idiota por se matar de um jeito incompetente, o mais idiota possível. O diretor desse filme deve ser um burro!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
    • por Joana Ribeiro Costa
    • 16.Ago.2006 às 15:51 - Permalink - Reportar
    Joana Ribeiro Costa
    • concordo plenamente com joana!!!
    • por Camila Lima
    • 19.Ago.2006 às 12:07 - Permalink - Reportar
    Camila Lima
    • O filme Vatel deixa muito a desejar
    • por Bibianny
    • 21.Ago.2006 às 20:09 - Permalink - Reportar
    Bibianny
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